Ilustração de corredor de supermercado com prateleiras de produtos básicos

Na fila do caixa de um mercado em Itaquera, Dona Neuza, 62 anos, pede ao filho para devolver o pacote de café de um litro. "Leva o de meio quilo", diz. "Dura duas semanas do mesmo jeito." A cena se repetiu pelo menos quatro vezes em uma semana de apuração pelo Caderno Parcela em supermercados da zona leste de São Paulo — Itaquera, Tatuapé, Penha e São Mateus.

O IPCA de maio mostrou alimentação em domicílio subindo 0,7% no mês e acumulando alta acima da média geral no ano. Nos corredores visitados, arroz tipo 1 subiu entre 6% e 11% desde janeiro; feijão carioca, entre 9% e 15%; carnes bovinas cortadas para stew, de 8% a 13%, dependendo da rede e do bairro.

O que mudou na prática

Conversamos com 23 compradores e três gerentes de loja. O padrão mais comum: redução de volume sem abandonar a marca preferida — pacotes menores, menos itens de conveniência, mais atenção ao preço por quilo.

Horizonte urbano representando bairros da zona leste paulistana
Supermercados de bairro e redes nacionais convivem na zona leste — com listas de preço que nem sempre acompanham o índice nacional.

Marcos Antônio, motorista de aplicativo morador do Tatuapé, passou a fazer compra quinzenal em atacado com dois vizinhos do prédio. "Dividimos o arroz de 5 kg e o óleo de 5 litros. Sai mais barato e ninguém precisa carregar sozinho", conta. O grupo usa uma planilha compartilhada no celular para anotar quem pagou o quê.

Quando o preço sobe, a gente não compra menos — compra diferente. Troca marca, corta o supérfluo e volta a olhar etiqueta de quilo.

Rede grande x mercado de bairro

Em cinco estabelecimentos de rede e três mercados independentes, os preços não subiram na mesma proporção. Lojas menores em Penha e São Mateus reagiram com mais lentidão em alguns itens — mas compensaram em outros, como ovos e leite UHT.

Um gerente de filial em Itaquera, que pediu anonimato, disse que a margem apertou em grãos e massas: "O fornecedor repassa e a gente segura um pouco para não perder cliente. Mas tem limite." Promoções de fim de semana continuam cheias, mas o ticket médio caiu cerca de 7% em abril e maio, segundo o próprio relato.

Estratégias que leitores relatam

Entre as táticas mais citadas: lista fechada antes de sair de casa; comparar preço por quilo e não só o valor do pacote; priorizar feira livre para hortifrúti (quando há tempo); adiar compra de itens não perecíveis até promoção confirmada no aplicativo da rede — sem acumular por impulso.

Patrícia, professora da rede municipal em São Mateus, reduziu carne bovina para uma vez por semana e aumentou ovo e frango. "Não é escolha de dieta — é conta no fim do mês", afirma. Ela estima que a cesta da família de quatro pessoas subiu de cerca de R$ 780 para R$ 890 entre março e maio.

O que os números oficiais não mostram

O IBGE mede uma cesta nacional; o supermercado da esquina mede outra. Marcas brancas ganharam espaço nas gôndolas visitadas, mas nem sempre são mais baratas por quilo — outro motivo para olhar a etiqueta pequena.

Na atualização desta reportagem, duas redes consultadas informaram novas promoções de arroz e feijão para a segunda quinzena de junho, com desconto limitado a três unidades por CPF. Moradores ouvidos dizem que vale a pena — desde que o item não seja estocado em excesso em casa pequena.

Rafaela Costa

Repórtera de consumo e varejo em São Paulo. Cobre preços, hábitos de compra e impacto da inflação no dia a dia das famílias. Formada em jornalismo pela PUC-SP.